domingo, 28 de dezembro de 2008

Sobre a impermanência.

Tudo passa. Nada permanece inalterado. Nada permanece o tempo todo, do mesmo modo, no mesmo lugar. Inclusive aquilo que gostaríamos que não passasse nunca. Aprendi, embora tantas vezes esqueça e as circunstâncias me convidem a relembrar, que a ordem natural das coisas é a fluência, o movimento. O fechamento de um ciclo e a inauguração de outro. A natureza tem dado claros sinais, é só a gente olhar para as várias fases da lua. Para o movimento das ondas do mar. Para os diferentes tons do céu durante o dia. Para o período de floração das plantas. Para o caminho que a semente faz até se vestir de fruto. Intimamente, basta olharmos pra nós mesmos, usando o espelho de fora ou o espelho de dentro. Durante a nossa jornada temos inúmeras oportunidades para olharmos nos olhos da morte. Mas, como costuma ser difícil lidar com as mudanças da nossa própria vida. Como é difícil assumir a morte das coisas e muito mais difícil quando de pessoas, animais de estimação, mesmo as mais debilitadas, sobreviventes apenas pelos tubos do apego. Como é difícil arrumar os armários do próprio coração.
Há fases em que somos surpreendidos com tanta rispidez pelas experiências do nosso caminho, que muitas vezes, desabamos, parece nos faltar o chão, choramos e passamos dias sem sorrir, esquecemos do nosso compromisso maior, aquele que temos com o nosso coração. De alguma maneira, geralmente sutil, rompemos com tudo. Com todos. Principalmente, com nós mesmos. Sentimo-nos muito tristes e tentamos paralisar o movimento da vida. Fases em que não nos encantamos com mais nada. Esquecemos o gosto bom das alegrias mais simples. Fechamos nossos olhos à grandeza do milagre presente em todas as coisas. Nessas fases doídas da caminhada, a gente esquece, sim, de que tudo passa. Esquece, sobretudo, que precisamos permitir que passe. E que não há muito o que fazer nesses momentos, senão entregar e confiar, e é uma tarefa difícil. Deixar que as coisas morram e abram espaço para o novo. Aceitar a mudança, em que as coisas não têm mais a forma antiga nem ainda a forma nova. O tempo da crisálida: nem mais lagarta nem vôo ainda. Respeitar a cadência natural das gestações. Lembrar que precisamos ser delicados e generosos com nós mesmos para atravessar a frente fria até o sol surgir de novo. Lembrar que tudo é impermanente.

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